Rituais não morrem, adaptam-se

January 8th, 2012 § 1 Comment

Foi um inverno ameno e até quentinho para os padrões daqui até agora. Ao contrário das previsões mais tenebrosas, nem nevou ainda… Na noite de ano novo, na companhia da minha mãe, fui conferir a festa na praia, assim como se estivéssemos em Copacabana. Ouvimos dizer que fazem duas fogueiras gigantescas, uma em Duindorp e a outra em Scheveningen, os dois lados da costa de Haia, para ver qual das duas queima mais alto nos ares. São os moradores locais, pescadores e outros tipos, que se organizam todo ano para a competição.

Saímos da minha casa no Zeeheldenkwartier (o quarteirão dos heróis do mar, em bom holandês), minha mãe na garupa da bicicleta, às 23h30 a caminho da praia. Desde a véspera que os holandeses já explodiam seus fogos nos céus de Haia. Uma festa de mais de vinte e quatro horas, que lembra os festejos do Rio. Pedalamos como num campo de guerra, em meio a rojões e destroços pelas esquinas. Muita gente não gosta desta festa, realmente de dar medo. Ouve-se falar de carros incendiados e das futuras leis mais restritas à compra de fogos (cujo uso é limitado a poucos feriados por ano). Mas a excitação é maior do que o perigo real e chegamos intactas nas areias do norte.

A primeira visão foi a construção de madeira, se revelando atrás das dunas que protegem a cidade do mar. Um palácio desconhecido, feito do material usado na pesca por aqui, que mais lembrava um templo perdido na Indonésia, ou Myanmar, ou Tailândia. Quando chegamos mais perto foi que entendemos como funcionava a coisa.

E começou o espetáculo fantástico de calor e destruição. O vento soprava as chamas para um lado, o público assistia do outro.Uma luz tão poderosa, que iluminava tudo num raio de 500 metros. Um bafo que nos aquecia a uma distância e tanta, mesmo a uma temperatura de uns 5º C. Ao som do techno, a música que três gerações holandesas atrás já ouviam no café da manhã, as famílias dançavam e bebiam suas sidras.

Lemos no dia seguinte que a fogueira do lado de Scheveningen foi maior do que a nossa, em Duindorp. Digo nossa, porque acabamos indo pro lado sul da praia, menos badalado. De qualquer maneira, dali a impressão era de estarmos diante da maior fogueira de todos os tempos. Os fogos de artifício não eram páreo para aquelas chamas (quando você cresce indo à festa de Copacabana os seus padrões de réveillon podem ser bastante altos; então nem reparamos nos fogos em si). Mas a fogueira bateu todos as minhas experiências anteriores com fogo.

Aliás foi no primeiro réveillon que passei por aqui que entendi o desejo humano de lançar fogo nos céus. Deve haver um gosto muito antigo de se marcarem os ritos de passagem com fogo, elemento tão primitivo quanto essencial a todas as civilizações. Mesmo uma sociedade esterilizada como esta daqui, quando chegam as datas festivas, eles saem no frio e na chuva, pra fazer fogo, para iluminar os céus e dizer pra si mesmo que ainda somos humanos.

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§ One Response to Rituais não morrem, adaptam-se

  • Simone says:

    Que legal, nesses 2 Reveillons em terras holandesas nunca passei em Den Haag, sempre surge um convite de ultima hora, mas pareceu bem legal,.

    Hey que legal que você mora no Zeehelden, eu acho um dos bairros mais legais aqui da cidade, cheio de gente jovem.

    Beijao

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